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To read and Think Together

Texto Curatorial: O Olhar é um Encontro Comum ((PT))

 
 

Texto curatorial escrito no contexto do projecto colaborativo “Entre Olhares Encontros (in) comuns”, do CAM em Movimento da Fundação Calouste Gulbenkian, que deu como resultado a exposição do mesmo nome. Patente de 20 de janeiro a 31 de março de 2023. Texto revisado e ajustado coletivamente.

O OLHAR É UM ENCONTRO COMUM

Os incontáveis encontros que tivemos no decorrer da nossa vida transformaram-nos profundamente ao ponto que a somatória de todos eles (bons e maus) constitui quem somos hoje. Portanto, um encontro é a semente de uma diversidade de consequências individuais e coletivas. Assim, longe de apenas um acaso, um encontro é uma experiência criativa coletiva, comum; neles nos criamos em conjunto e como indivíduos.

Já um olhar, não é uma experiência passiva também não. Olhar é, seguindo o pensamento do filósofo Maurice Merleau-Ponty, o ato de trazermos o mundo para dentro de nós, é o encontro de nossa carne com o mundo. O nosso olhar nos constitui e construímos o mundo através dele. No entanto, olhar também não é um ato individual. Um olhar é sempre um entre-olhar, ou melhor, um entre-olhares, pois sendo o nosso corpo matéria feita da mesma sustância do mundo, é um corpo visível para um outro (Merleau-Ponty). No olhar encontramos o outro e o outro encontra-nos, acende-se uma faísca. Assim, todo olhar é um encontro, e todo encontro é um entre-olhares.

O olhar inaugura também um desejo: o de fazer ver, e com isto, uma nova relação com o mundo, a de uma experiência partilhada da visão. É neste ver e dar a ver que surge a imagem. A pensadora Marie-josé Mondzain entende a imagem como um gesto que inicialmente saiu da nossa mão ao pintarmos nas cavernas há mais de 30.000 anos para outros verem, e que inscreve no visível do mundo a nossa própria ausência, pois, as imagens superam sempre as nossas vidas. A imagem, segundo Mondzain, cria então uma temporalidade alheia à orgânica do nossos corpos, dependentes dos ciclos do dia-noite, das estações, da morte e dos nascimentos. A imagem é, ao mesmo tempo, a possibilidade de trascender e a nossa relação com o mundo fundada numa partilha. É por isso que temos o desejo de fazer ver, pois constitui o núcleo da nossa relação com o mundo, com o outro, com nós próprios: no fazer ver imagens nos encontramos e acariciamos um instante da eternidade. E é também o motivo do nosso encontro particular nesta exposição, encontrar-nos no entre-olhares para criar uma experiência de visão comum que nos transcenda, que permita infinitos e diversos encontros.

Neste gesto criativo que é um encontro para fazer ver, defendemos a potência de continuar a disponibilizar inteiramente os nossos corpos para nos aproximar das obras e dos seus universos, e possibilitar que o encontro com a arte não seja um eco parcial no infinito fluxo de imagens e informação digital. Temos então a possibilidade de reivindicar o encontro com a potência sensível e emotiva dos nossos corpos, ainda mais importante hoje, depois de uma pandemia que nos obrigou a nos afastar-nos e a habitar virtualmente “o mundo”.

Este nosso encontro criou então um espaço comum que não só nos reuniu em torno de um propósito partilhado, como nos permitiu construirmos uma comunidade inserida no nosso bairro e na nossa cidade. O comum do nosso encontro é o espaço amplo que desenhou um lugar para a capacidade criativa e reflexiva de cada um(a), potenciando-a para a construção conjunta de uma vontade de ver e de fazer ver que não seria possível se não coletivamente. O nosso comum resume o nosso trabalho coletivo em configurar um olhar plural que permite criar um espaço e uma narrativa que pensa na potencialidade dos encontros entre uma diversidade de pessoas, com opiniões às vezes contrárias, com perspectivas diferentes da arte, dos processos, da vida. Assim, o nosso encontro torna-se incomum no sentido de reunir pessoas que de outra forma não teriam se encontrado. As imagens e a vontade de nos aproximar delas permitiu o encontro, permitiu a criação coletiva, e finalmente, permitiu uma reflexão sobre o enorme poder dos encontros e dos entre-olhares. Estas são possibilidades que queremos partilhar com mais pessoas, e desejar que sejam cada dia menos incomuns.

Assim, o nosso encontro soma as nossas individualidades e as das criações dos artistas para falarmos coletivamente de que podemos construir em comum, apesar da diferença, das discordâncias e da multiplicidade de olhares. Ressaltar e partilhar nossa experiência é indispensável num contexto global que continua, infelizmente, a incluir guerras, separações, egoísmos, perseguições e a ameaça de totalitarismos. Reunimos nossas vozes para provar, mais uma vez, que o encontro e o entre-olhar é a nossa potência mais fértil. As imagens conseguem nos reunir em torno delas e fazem possível pensarmos e criarmos outros mundos possíveis; pois não vemos, como diria Merleau-Ponty, as imagens, mas, vemos de acordo com elas.

Assim, confiamos ao nosso olhar coletivo o gesto criador de um discurso e de uma experiência que quer propiciar ainda mais encontros, e neste processo surge a pergunta pelo encontro não apenas com as imagens e com os outros, mas, com nós próprios. De que forma propiciamos o encontro dos outros também com a sua própria liberdade?

Pensando nas causas, nas consequências, nos contextos, nos protagonistas e nas infinitas possibilidades de se encontrar ou desencontrar, escolhemos um grupo de obras que em conjunto nos permitem abrir a porta de encontros de diversa tipologia. Pintura, escultura, serigrafia, desenho, fotografia, instalação e livros de artista ajudam a nos aproximar das especificidades na hora do encontro com um lugar, com um animal, com si próprio, com a história, com a dor, com a ausência, com os desencontros, com o cosmos, com as ruinas, com o amor, com a palavra, com as ideias, com as consequências de absolutismos, guerras e injustiças, enfim, com a humanidade. Estas obras são a chave para o encontro que está a esperar por nós, dentro de nós. Oferecemos este relato como reflexão que deseja abrir possibilidade de encontros, que quer ser um espelho onde possamos todos olhar, ser olhados, encontrados, encontrarmos o outro, estender a mão ao encontro. Nesta ação constituir-nos também como espectadores que dão a ver, para sairmos por alguns instantes de nós próprios e sermos espectadores de quem somos e quem podemos ser.

Referências

MERLEAU-PONTY, M., O Olho e o Espírito, Lisboa, Vega, 2018.

MONDZAIN, M.J., Homo Spectator. Orfeu Negro, 2015.

 
Constanza Solorzano