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Texto Curatorial: Uma Série de Eventos Afortunados ((PT))

 
 

Texto escrito para o catálogo da exposição: A series of -un-fortunate events do fotógrafo português Gil Ribeiro. Patente de 9 de setembro a 18 de outubro de 2024 na galeria da Biblioteca de Alcântara.

 

UMA SÉRIE DE EVENTOS AFORTUNADOS

Ao encontro do nosso destino, transitamos pelas ruas das nossas cidades com indiferença  rotineira. Há, no entanto, quem saiba perceber o ritmo secreto que palpita freneticamente no contínuo cruzamento das pessoas com inumeráveis situações impossíveis de prever, mas não de intuir. É na captura do ritmo desses cruzamentos e das suas complexidades que se enquadra o trabalho do fotógrafo português Gil Ribeiro, numa prática que integra uma sagacidade na hora de encontrar condições precisas de luz e sombra, de cores e de contexto cultural para compor estas imagens que acabam por ser uma observação profunda da condição humana nas cidades de hoje: da marcante solidão melancólica às situações sarcásticas e cómicas. Com uma enorme astúcia para entender as relações entre o espaço urbano e as pessoas, numa estética determinada pela precisão, Gil Ribeiro sabe ver e capturar essas faíscas fortuitas e quase imperceptíveis que cintilam só para um olho muito agudo.   

Assim, desse quotidiano frenético da rua que dilui os cruzamentos fortuitos de milhares de pessoas em rotinas incessantes, o olhar minucioso de Ribeiro revela-nos a série de eventos que se juntam extraordinariamente numa fração de segundo antes de se dissolver novamente no fluxo do tempo. 

Ao olharmos para estas fotografias a realidade desdobra-se: de um lado a série de eventos que tiveram que acontecer, um por um, até à captura do afortunado instante, e do outro, o tempo secreto da nossa imaginação que se questiona o que vai acontecer depois; deixando-nos temporalmente suspensos. Nesse espaço invisível entre o óbvio e o extremamente particular, Gil pousa o seu olhar e extrai para nós uma fração dessa experiência tão fortuita quanto irrepetível. 

Ruas de seis países diferentes compõem um corpo de trabalho que desvela as rarezas do nosso mundo tão humano, assim como demarca o ponto exato em que tempo e espaço ganham novas dimensões e uma grande série de eventos afortunados emerge do caos da rua.


Constanza Solorzano